A
busca pelo (suposto) verdadeiro amor de nossas vidas é uma série de tiros no
escuro, como brincar de cabra-cega ou esconde-esconde. Seu olhar cruza o de
outra pessoa (morno…), ela sorri pra você (quente.), vocês se aproximam e
começam uma amizade (muito quente!) e aí você diz pra ele que está interessada
no menino bonito que viu no elevador e decide investir todos os seus esforços
para conquistá-lo (frio…). O problema da vida real, quando comparada ao jogo, é
que, além de vendados, estamos surdos, então não ouvimos os “quente” ou “frio”
que a vida travessa (e um pouco sádica, devemos admitir) cochicha em nossos
ouvidos.
E
assim ficamos tateando no escuro, sem qualquer orientação, exceto pela obsessão
(que parece já ter nascido com a gente!) de que encontrar o grande amor de
nossas vidas é o grande objetivo de nossa passagem pela Terra. Todo o resto é
secundário. Ao fim de cada caminho errado na minha jornada rumo ao “grande amor
da minha vida”, paro para tentar entender o que pode ter saído errado. Se eu me
desviei da rota certa (e para onde leva essa rota certa?), se passei raspando
pela pessoa certa em uma estação de trem, ou se já me sentei em sua direção em
algum café, onde ambos estávamos acompanhados e sem a oportunidade de sequer
sorrir.
Também
me pergunto se já não encontrei a pessoa, mas não a reconheci. Se ela não está
contida no corpo daquele cara chato que eu evito encontrar todos os dias no
almoço; ou daquele amigo que sempre ouve com atenção, paciência e até certo
carinho minhas desventuras amorosas; se estava naquele cara com que eu me
decepcionei precocemente ao desconfiar que ele estava a fim da minha amiga; se
estava no recepcionista do hotel que, depois de uma conversa sobre gostos
musicais, colocou Smiths pra tocar e sorriu pra mim; se estava no colega
de trabalho que piscou pra mim, com certa cumplicidade, ao perceber o quanto eu
fico nervosa ao falar em público. Fico imaginando várias pessoas, todas
vendadas, indo de encontro umas às outras, mas passando batido por aquela que
realmente devem encontrar. Aliás, os desencontros sempre me chamaram a atenção,
até mais que os encontros.

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